domingo, novembro 26, 2006
domingo, novembro 19, 2006
domingo, novembro 05, 2006
Alma que é corpo
A PERFECT CIRCLE - IMAGINE
Levantemos os olhos.
Olhemos o homem prostrado em frente àquele altar.
Vejamos a mulher que entra nesta igreja, neste exacto momento, e que se dirige ao confessionário.
Reparem na preocupação que, o homem, tem estampada nas feições e gestos de reza apressada (ou será compulsiva?) … Que faz ele? Medita? Ralha?
Não. Teme. Julga assim deitar da alma, que é corpo afinal, o seu mal, a sua loucura, a sua dor; tenta expurgar pecados que alguém lhe disse que eram só seus, que alguém lhe fez crer que o matavam, não cá, mas lá do outro lado (seja lá que lado for).
Sigamos então a mulher (porque a reza dele se alonga e nós temos o relógio a dar conta do tempo), acabada de entrar no confessionário.
Lá, à sua espera, sem saber quem aguarda, está o padre – homem quase santo, braço ou perna, cabelo ou pêlo de deus, não se sabe, eu não sei, mas ele assume-se como seu representante.
Esta mulher veio carpir a falta do seu homem, que foi para junto do Senhor “faz hoje dois anos”. E o padre, que é homem e cura males da alma, começa a pensar em como a pode ajudar. Começa a reza, o zunzum de lábios que se deveriam tocar em surdina, e ficam os dois assim uns minutos.
Escutemos os pensamentos do padre – shiuu baixinho – que perdido nas rezas, que já lhe são diárias e mais que diárias, que passam pelos minutos todos de um dia, imagina que as mãos são para tocar e que se um homem comum não o faz por respeito à viúva, ele, o padre, a pode abraçar. E já abraçado que está imagina que aquela boca já não beija, mas que tem ânsia de o fazer, e que esta mulher terá pernas roliças à espera de serem apalpadas e que os seios precisam de ser acariciados e que a cama de um homem pode ser de outro e logo este que só tenta aquecer a alma, que é corpo afinal, de uma crente… Respira…
Vejam como está perdido em pensamentos e calafrios, oiçam como debita monossílabos à mulher que desabafa e que entretanto – escutem - já terminou a carpideira.
“Ámen e que o Senhor te acompanhe”, que ele não pode, mas que o teria feito de livre vontade, por misto de obrigação dele e consolação dela afim de ambos serem libertos da tensão que os une e se sentirem em paz.
Ainda ali está o homem ajoelhado junto do altar, quando já sai a mulher porta fora, assoando-se num chinfrim de arrepiar, tão sozinha como quando entrou, mas logo sai também, vejam… Para onde? Não sei… mas vai solto, deixou no altar cruzes e pesos pesados de males que pensa ter.
E rezam estas três pessoas a um deus, que se diz se maior, mas deixam-se arrastar para um local de união em que cada um faz por si para atingir o seu Olimpo, para atingir a sua paz e nenhum deles confortou o outro e cada um deles queria ser confortado.
Vamo-nos embora que se faz tarde e há mais paróquias onde pregar, talvez numa delas esteja deus, o Grande, o pai, Irmão, o que for, talvez lá, consigamos entrar de coração aberto e não de ouvidos curiosos às rezas de outros…